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• A Biblioteca
Universitária no cenário brasileiro
Mariza Russo
INTRODUÇÃO
A partir da crise econômica que se abateu sobre o Brasil, após
a década de 80, que teve como reflexos o processo inflacionário
e a diminuição dos orçamentos do Setor Público,
as universidades passaram a conviver com restrições orçamentárias
que influenciaram diretamente o desenvolvimento das bibliotecas. (GARCIA,
1991)
Esse cenário de obscurantismo estava instalado nas Bibliotecas Universitárias
Brasileiras – BUs, desde a década de 60, mesmo com a resolução
do Conselho Federal de Educação, em 1963, de incluir a “vinculação
a uma biblioteca” como um dos requisitos para o reconhecimento dos cursos
das Instituições de Ensino Superior – IES. (RUSSO,
1998a)
A implementação de ações, pelo governo, como o
Programa Nacional de Bibliotecas Universitárias – PNBU, em 1986,
e o Programa Nacional de Bibliotecas de Instituições de Ensino
Superior – PROBIB – extintos em 1995, constituíram-se em
tentativas de resolução dos problemas estruturais das BUs.
Dessa forma, as BUs vinham se ressentindo da falta de um “organismo” capaz
de empreender ações voltadas para o objetivo de desenvolver propostas
de modernização de suas estruturas e serviços, o qual
proporcionaria sensíveis progressos ao ambiente das BUs brasileiras.
(RUSSO, 1998b)
Recomendações nesse sentido eram constantes nos relatórios
finais dos Seminários Nacionais de Bibliotecas Universitárias – SNBU,
eventos realizados a cada dois anos, desde 1978, com o objetivo de discutir
temas que levassem ao melhor desempenho das BUs.
A Comissão Brasileira de Bibliotecas Universitárias – CBBU,
organismo criado durante o V SNBU, em 1987, alterando seu paradigma inicial,
a partir de 1999, vem desenvolvendo ações que visam preencher
essa lacuna.
A CBBU foi instituída tendo como meta principal a elaboração
de diagnósticos da situação das BUs brasileiras, com a
finalidade de mapear suas características e disponibilidades visando
a intensificação de intercâmbio e de programas cooperativos
entre elas.
PANORAMA DAS BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS BRASILEIRAS
Com base em um levantamento elaborado pela CBBU, em
1998, foi desenvolvida a base de dados BIBES – Bibliotecas de Instituições Brasileiras
de Ensino Superior, atualmente, em sua 3a. edição.
A 1º edição da BIBES foi publicada pela CBBU, em parceria
com o Sistema de Bibliotecas e Informação – SiBI, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, em 1994, em formato impresso, contendo informações
cadastrais de 770 bibliotecas de IES brasileiras.
Na sua 2a. edição, através da mesma parceria, a BIBES
foi atualizada e, dessa vez, lançada em formato eletrônico, armazenada
em disquete, contendo os dados cadastrais de 1.014 BUs brasileiras, as quais
responderam aos questionários enviados pela CBBU, em 1997/1998 .
Com o avanço das tecnologias de informação no ambiente
das bibliotecas, o intercâmbio e a cooperação foram muito
facilitados e a CBBU, ainda em parceria com o SiBI/UFRJ, iniciou a realização
da 3a. edição da BIBES, com a finalidade de divulgar os dados
cadastrais das BUs, via WEB.
A tarefa foi iniciada em agosto de 2002, com o desenvolvimento de um questionário,
o qual foi enviado para 1.444 BUs, através de correio eletrônico,
tendo obtido resposta de 679 BUs.
Com base na 3a. edição está sendo apresentado, nesse trabalho,
um panorama das BUs brasileiras, para que esse diagnóstico venha a servir
como base para se efetuar análises sobre a situação atual
e a necessidade de ações futuras, que venham a contribuir
para a melhoria de seu desempenho.
CONCENTRAÇÃO FÍSICA DAS BUs
A criação das bibliotecas universitárias brasileiras acompanha
a criação das Universidades no Brasil, as quais foram surgindo
nos pólos de concentração populacional, em face à uma
demanda natural por educação e formação.
O cenário descrito no QUADRO, a seguir, apresenta a distribuição
das BUs cadastradas na 3a. ed. da BIBES, por estado e por região
brasileira.
O universo considerado para a análise dos dados constitui-se nas 679
instituições cadastradas na BIBES, até o lançamento
da 3a. edição, visto que as 765 restantes não confirmaram
suas informações.
DISTRIBUIÇÃO DAS BUs BRASILEIRAS POR REGIÃO
| REGIÕES |
ESTADOS |
QUESTIONÁRIOS ENVIADOS |
QUESTIONÁRIOS RECEBIDOS |
| NORTE |
Acre |
1 |
1 |
| |
Amazonas |
12 |
3 |
| |
Amapá |
5 |
1 |
| |
Pará |
51 |
29 |
| |
Rondônia |
25 |
8 |
| |
Roraima |
3 |
3 |
| |
Tocantins |
2 |
1 |
| Total |
|
99 |
46 |
| NORDESTE |
Alagoas |
1 |
0 |
| |
Bahia |
71 |
32 |
| |
Ceará |
31 |
27 |
| |
Maranhão |
14 |
4 |
| |
Paraíba |
3 |
1 |
| |
Pernambuco |
24 |
2 |
| |
Piauí |
1 |
1 |
| |
Rio Grande do Norte |
20 |
19 |
| |
Sergipe |
4 |
1 |
| Total |
|
169 |
87 |
| SUDESTE |
Espirito Santo |
27 |
10 |
| |
Minas Gerais |
135 |
57 |
| |
Rio de Janeiro |
266 |
169 |
| |
São Paulo |
219 |
88 |
| Total |
|
647 |
324 |
| SUL |
Paraná |
88 |
36 |
| |
Rio Grande do Sul |
228 |
112 |
| |
Santa Catarina |
81 |
43 |
| Total |
|
397 |
191 |
| CENTRO OESTE |
Distrito Federal |
39 |
13 |
| |
Goiás |
64 |
10 |
| |
Mato Grosso |
10 |
2 |
| |
Mato Grosso do Sul |
19 |
6 |
| Total |
|
132 |
31 |
Verifica-se, no Quadro, que a maior concentração
das BUs brasileiras apresenta-se na região sudeste,
que conta com cerca de 48% do número total de bibliotecas,
distribuídas entre 4 estados brasileiros.
Em seguida, aparece a região sul, com 28% do universo de BUs, distribuídas
em 3 estados; logo após situa-se a região nordeste, com cerca
de 13% do total de BUs, distribuídas em 9 estados, e por fim as regiões
norte com cerca de 7% e centro-oeste com cerca de 5% do total de BUs, distribuídas
em 7 e 4 unidades federativas, respectivamente.
Analisando-se esses dados, pode-se inferir que essa concentração
das BUs nas regiões sudeste e sul vem ratificar os investimentos realizados
ao longo de muitos anos nessas regiões, fato que contribuiu para
as disparidades regionais que se fazem presentes nas BUs brasileiras.
Essa concentração física é quase que diretamente
proporcional à distribuição da população
pelas regiões brasileiras, segundo dados da Fundação IBGE,
que apresenta, também, a maior concentração populacional
na região sudeste.
POLÍTICAS RECOMENDADAS PARA AS BUs
Através dos séculos, as bibliotecas têm sido o repositório
do conhecimento das universidades, com vistas a transmiti-lo para novas gerações.
No caso das BUs, elas possuem a missão de prover a infra-estrutura bibliográfica,
documentária e informacional para apoiar as atividades da Universidade,
centrando seus objetivos nas necessidades de informação do indivíduo,
membro da comunidade universitária. (TARAPANOFF, 1981)
Modernamente, as BUs podem ser consideradas como um portal para o mundo
de informações, dentro da era do conhecimento.
O problema de baixos investimentos nas universidades tem afetado profundamente
o desempenho das BUs e, conseqüentemente, vem comprometendo sua imagem
perante sua comunidade usuária.
Espaços, pessoal, acervos, produtos e serviços precisam ser repensados,
a fim de que as demandas sejam minimamente atendidas e se possa reverter o
quadro de insatisfação que envolve as BUs.
Apontar que a biblioteca universitária constitui-se em um elemento vital
da Universidade não pode mais ser usado como parte da retórica
dos trabalhos escritos e dos discursos que circundam as atividades de ensino,
pesquisa e extensão nas IES brasileiras.
A Biblioteca Universitária presta, sem dúvida, um serviço
essencial para toda a Universidade, pois na era da informação,
com a multi-disciplinaridade proeminente, uma Instituição que
queira preparar seu corpo docente, que por sua vez deverá repassar os
conhecimentos para seu corpo discente, não pode se permitir ignorar
os investimentos na sua principal porta de contato com o mundo.
Nesse sentido, mudanças consideráveis devem ser planejadas, com
vistas a apontar saídas para que a Biblioteca Universitária do
século XXI se apresente como a Unidade de Informação perfeitamente
integrada ao ambiente informacional deste século.
CONCLUSÃO
Este, sem dúvida, é um momento histórico que se está vivendo,
visto que a biblioteca universitária pode ser considerada como um umbral
da Sociedade da Informação.
Nessa era, como em todas as outras que se fizeram presentes, ocorre uma
evolução
natural das espécies e agora não serão os mais fortes,
nem os maiores que vão sobreviver e sim os que forem mais maleáveis
a mudanças.
A principal mudança é a tecnológica, que veio propiciar
para toda a população o acesso à informação,
criando o que se popularizou chamar de Sociedade da Informação.
(TARAPANOFF, 1997).
Muito se tem falado sobre o fim das bibliotecas, mais precisamente sobre
o abandono à consulta física aos seus acervos. Na opinião
de personalidades conceituadas como Bill Gates (1995), fundador e proprietário
da Microsoft Inc. e Nicholas Negroponte (1995) quando diretor do Massachussets
Institute of Technology – MIT, a informação fluirá para
onde quer que o interessado esteja, bastando que este esteja acessando uma
workstation conectada a uma rede de comunicação de dados.
Por outro lado, países como a França e a Inglaterra estão
investindo em novos e enormes edifícios para abrigar suas bibliotecas
nacionais, edifícios esses que parecem representar mesmo a antítese
da biblioteca sem muros que alguns autores acenam. (VERGUEIRO, 1997).
A afirmativa mais equilibrada é que a substituição total
da biblioteca tradicional pela biblioteca eletrônica é bem improvável,
se não impossível.
No entanto, essa biblioteca dos tempos atuais terá que oferecer uma
composição de produtos e serviços – impressos e
eletrônicos – onde deverão ser exploradas as vantagens
de cada um desses suportes.
Esse é o modelo da Biblioteca Universitária que a comunidade
científica de hoje está exigindo.
Organizar e gerenciar essa “nova biblioteca universitária” consiste
em um desafio para o profissional bibliotecário, que deve buscar se
qualificar de acordo com as necessidades desse novo ambiente informacional,
de modo a tornar cada vez mais efetivo o desempenho das unidades de informação,
ampliando e melhorando a imagem dessas organizações. Só assim
poderão conquistar e manter o respeito da sociedade e, conseqüentemente,
o apoio governamental merecido. É com esse paradigma que a Comissão
Brasileira de Bibliotecas Universitárias – CBBU - está se
propondo a atuar à frente das BUs brasileiras, nessa era atual.
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PALESTRA SOBRE: ÉTICA
E O PROFISSIONAL BIBLIOTECÁRIO
Rita Gonçalves Marques Portella Ferreira* Profª Ms UFMA e Coordª da
CEP/CFB
INTRODUÇÃO
Quero, em nome da Comissão de Ética Profissional – CEP
do Conselho Federal de Biblioteconomia - CFB, dar as boas vindas a todos
os colegas participantes deste Treinamento.
Quero apresentar-lhes os componentes da CEP. Peço que cada membro faça
sua auto-apresentação.
Quero agora dizer-lhes que é um prazer enorme e uma honra participar
deste evento, que considero muito importante, tendo já em vista os reflexos
que, com certeza, atingirão os bibliotecários brasileiros, uma
vez que aqui se encontram representantes de todos os CRB de todas as Unidades
da Federação Brasileira.
Desejo que esse momento seja agradável e proveitoso para todos nós.
Ele também é um encontro. O encontro de uma comunidade de dirigentes
dos Conselhos Federal e Regional de Biblioteconomia. É um momento raro
que deve, por isso mesmo, ser aproveitado da melhor maneira possível.
Esta parte do treinamento diz respeito à ética profissional do
bibliotecário, cujo objetivo, através deste espaço criado, é expor
e discutir as questões referentes à ética na biblioteconomia,
na perspectiva de promover maior socialização dessas questões
para o desencadeamento de ações educativas na conduta do bibliotecário,
tanto na sua atuação profissional, quanto no exercício
da cidadania.
E isto é um processo que deve ser desenvolvido e compartilhado com
os CRB.
Professora da Universidade Federal do Maranhão. Mestre em Ciência
da Informação. Coordenadora da Comissão de Ética
Profissional do Conselho Federal de Biblioteconomia
Portanto, a CEP não mediu esforços, e, apesar das dificuldades
enfrentadas pela distância geográfica entre seus membros, confeccionou
e organizou em um só documento todo o material que produziu para dar
suporte e maior aproveitamento, o qual será entregue para todos
os participantes.
Foi um trabalho árduo e meticuloso que se iniciou desde o do mês
de janeiro e que teve como marco inicial, o índice da legislação
do CFB sobre ética.
O treinamento está estruturado em três partes: na primeira será trabalhado
o conteúdo da legislação sobre ética (Resoluções
do CFB 339/93, 40/2001/42/2002); na segunda, sobre os procedimentos das ações éticas
pelas CEP; e, na terceira, a aplicação de casos práticos
para serem solucionados com base na instrumentação legal do CFB
sobre ética.
Ética, como todos nós sabemos, é um tema complexo que envolve
o homem em todas as suas relações sociais, quer no exercício
na profissão, quer na sua convivência em comunhão com outros
homens. Diante da complexidade do tema, fiz um recorte a respeito da ética
voltada para o profissional bibliotecário , buscando debater qual o significado
do termo “ética”, do ponto de vista teórico e prático,
seus fundamentos históricos e sua relação no mundo atual,
demarcado por mudanças nos campos político, econômico, tecnológico,
científico, sócio-cultural e religioso.
Na literatura encontramos inúmeros conceitos de ética: ética
como uma diretriz pela qual o ser humano rege o seu comportamento, na escolha
do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto, tendo como objeto
desse processo o sujeito e os valores morais; ética como conjunto de
valores morais que se devem observar no exercício de uma profissão; ética
como conjunto das práticas morais de uma sociedade (SILVA, 2001, p.
20); ética como área da filosofia que investiga os problemas
colocados pelo agir humano, enquanto relacionado com valores morais (SEVERINO,
1994, p. 196); ética como conjunto de princípios que rege ou
orienta a ação das pessoas e das sociedades na busca do equilíbrio
dessa ação; ética como conjunto de normas que determina
a conduta das pessoas ou o funcionamento das instituições
(CHAGAS, 2002, p.16).
No mundo atual, as questões éticas estão relacionadas
com o ideal de cidadania, onde a ética vem somada ao sentido de conduta
como forma de educar cidadãos. Na visão de Maciel (1989, p. 6),
a educação para a cidadania “é o caminho por onde
chega a consciência dos direitos e deveres das pessoas”. Protágoras
já indagava sobre “que tipo de educação leva à virtude”,
e temos consciência de que esta é a cidadania. Apesar de que algumas
pessoas, setores ou segmentos estejam considerando-a como algo superado, muito
pelo contrário, hoje a ética se renova pela sua capacidade de
possibilitar uma vivência, uma solidariedade social.
Os acontecimentos como guerras religiosas, clonagem humana, política,
corrupção são resultados de uma sociedade criada pelo
sistema capitalista, que esconde, ou tenta esconder sua própria criação
- a miséria humana. Por exemplo, a guerra santa do Iraque, a comercialização
dos genes humanos.Será que isso não significa o fim da privacidade
genética humana a exemplo do que foi publicado na Revista Proposta,sobre
o fato de que o governo irlandês vendera as informações
genéticas de toda a população do país (270 mil
pessoas) em fevereiro de 2000? Isso tem respaldo ético? Se em uma sociedade
democrática cada pessoa não é dona de seus próprios
genes e não tem o direito de decidir sobre sua intimidade genética,
o que lhe resta para garantir sua dignidade humana?
Entendemos que a mundialização do capital não seja o único
responsável pelo déficit ético que assola o mundo, mas,
com certeza, é um dos principais fatores do processo de degradação
social. A história é palco de grandes acontecimentos que comprovam
que a falta e a transgressão da ética é algo historicamente
congênito, isto é, a ausência da ética se tornou
uma adaptação progressiva no homem perante suas condições
de vida, tanto para com ele próprio, quanto para com o grupo a que
pertence.
Apesar dessa diversidade conceitual ainda é visível a carência
de atitudes éticas nas relações humanas, constituindo-se
na crise social e política que ora assola o mundo, como as diferentes
formas de violência contra a criança, os idosos, a mulher, de
preconceito racial, de terrorismo, de egoísmo, de diferenças
sociais, enfim, resultando tudo em déficit ético, que faz com
que a razão não estabeleça os critérios capazes
de situar o homem criticamente no mundo, através de relações
afetivas.
Do ponto de vista econômico, os mercados financeiros impõem suas
premissas, fortalecendo o fenômeno da globalização que
atinge os países dos diferentes continentes, ditando as normas e estabelecendo
outros tipos de relações humanas e sociais, onde a competitividade,
o individualismo e o domínio das tecnologias se estabelecem como
as palavras de ordem no atual mundo globalizado.
Do ponto de vista profissional, os reflexos da globalização e
dos avanços das Tecnologias de Informação e de Comunicação – TIC’s
vêm afetando significativamente o mundo do trabalho e, conseqüentemente,
a formação de profissionais nas diferentes áreas de
conhecimento.
No campo da Ciência da Informação e da Biblioteconomia
esses impactos são evidentes e reais, redefinindo as práticas
do profissional da informação e sua relação
social com o mundo, delineando assim novas formas de ser, pensar, fazer,
interagir,
comunicar e produzir.
Esse modelo de sociedade nos remete a profundas reflexões e questionamentos
sobre que tipo de ética se instala no atual contexto caracterizado por
profundas mudanças paradigmáticas, como: pós-modernidade,
neocapitalismo, tecnologia informática, internet, mídia eletrônica,
clonagem, teleeducação, dentre outras.
Por outro lado, nos perguntamos se na realidade brasileira estamos vivendo
a era da sociedade da informação e da informatização,
se considerarmos o processo de exclusão social da maioria da sociedade
que vive a síndrome da miséria e da falta de condições
básicas de sobrevivência. Afinal, que perfil de profissional ético
devemos formar para atender essa complexidade da sociedade brasileira,
sem perder de vista os fatores conjunturais que caracterizam o mundo globalizado?
Aqui, ressaltamos a ética do eu consigo mesmo, com o outro e com o grupo.
A ética do eu entende a virtude como sendo o exercício do bem
consciente, algo intrínseco que parte do ser e reflete no grupo ou para
com o outro. tem seus costumes caracterizadamente impostos para a conduta do
indivíduo, regras do tipo: não mate, não roube, não
fume, não destrua a natureza, etc. A ética do eu e a ética
do outro estão subordinadas a uma ética pública, uma vez
que é guiada pela única virtude - a justiça.
A ética nasce de uma escolha individual, quer seja do grupo ou não,
onde o sujeito ético só existe quando tende a conhecer a existência
do outro, interagindo e respeitando os limites individuais e coletivos e as
diferenças, o maior desafio nas relações humanas.
É nesse contexto da ética do eu para com o outro e para com o grupo
(sociedade) é que se fundamentam os princípios da ética
e da cidadania, os quais são o fundamento para o exercício da prática
profissional.
Hoje, qual a concepção que temos sobre ética? É possível
se falar de uma “ética bibliotecária”? Por que essa
temática tem sido objeto de discussão com freqüência
nos eventos dos mais diversos segmentos da sociedade? Como se constrói
uma ética profissional? A inclusão de disciplinas nos currículos
dos cursos de Biblioteconomia e Ciência da Informação,
assim como a instituição do Código de Ética Profissional
pelo CFB garantem a formação de um profissional ético,
no verdadeiro sentido da palavra?
Entendemos que a construção da ética está atrelada
a um processo educativo que se desenvolve desde a mais tenra idade (se inicia
na família e na religião) e evolui a partir das relações
sociais e afetivas que mantemos com o coletivo. Essas relações,
por sua vez, estão fundamentadas por ideologias, sonhos, projetos e
ações que buscam alcançar objetivos comuns que contribuam
para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos e para o exercício
de práticas cidadãs.
Nessa perspectiva, acreditamos que o papel dos profissionais da informação,
em destaque o bibliotecário, assume maior relevância social, posto
que este profissional tem como instrumento de trabalho “a informação”,
insumo básico para o desenvolvimento da sociedade.
Aqui ressaltamos a importância dos Conselhos Federal e Regionais de Biblioteconomia
e dos demais orgãos de classe, como agências sociais e educativas
que muito contribuem para a formação política e ética
dos bibliotecários.l.
A ética profissional também teve suas origens na Grécia
Antiga, no período em que as organizações do trabalho
não eram norteadas pelas profissões, e sim pelo trabalho escravo,
quando Platão ensinava como obedecer regras para ser um escravo
virtuoso.
Na década de 80, do século XX, a ética profissional surgiu
nas empresas, devido à redução das hierarquias, o que,
conseqüentemente fez diminuir a autonomia das pessoas. A partir daí,
mesmo com a diminuição dos organogramas nas empresas, o nível
de competição para obtenção de cargos maiores aumentou,
dando espaço à concorrência. Como o objeto da ética
profissional é justamente conseguir a convivência com outros profissionais
e a profissão, estabeleceu-se uma ordem necessária ao bem comum,
cuja virtude fundamental é a honestidade.
Portanto, a criação dos Códigos de Ética nas profissões
surgiu após a regulamentação de cada profissão
como profissão legal. Como exemplo, pode ser citada a regulamentação
da Profissão de Bibliotecário, através da Lei 4084 de
30 junho de 1962, que possibilitou a criação do primeiro Código
de Ética do Profissional Bibliotecário, aprovado em 1963,
no IV CBBD,em Fortaleza.
Nesse contexto estão os códigos de ética como instrumentos
não apenas punitivos, mas de conscientização das ações,
dos direitos e dos deveres de cada profissional para com o colega, para com
os outros e para com o público.
Todos esses requisitos legais dos deveres e dos direitos que competem ao
profissional bibliotecário são responsabilidades de cunho ético. De
que forma, no entanto, o profissional deve estar ciente destas aplicabilidades éticas?
Seguramente com o ensino dessas prerrogativas éticas nas escolas de
biblioteconomia, isto é, com a inserção de disciplinas
que abordem o tema ética profissional, e não somente através
do juramento proferido pelo formando no ato de sua formatura no final do Curso.
Em pesquisa recentemente realizada, apenas três Escolas de Biblioteconomia
oferecem a disciplina ética. Nas demais, ela constitui apenas uma unidade
dentro do conteúdo de outra disciplina. De que formas os Conselhos poderão
atuar, mais intensamente, no processo educativo de formação ética
educativo dos profissionais bibliotecários? Já que o trabalho
educativo parece precário, será que podemos estar seguros de
que os bibliotecários estão executando suas atividades profissionais
pautadas nos princípios da ética? Qualquer que seja o profissional,
ele deve conhecer e vivenciar a sua legislação, bem como valor
social do seu trabalho, jamais se esquecendo do porquê do seu saber
fazer especialmente porque todo trabalho se faz com e para outros, com
e para a sociedade.
Deve, portanto, agir eticamente, sempre.
Todos os cidadãos são integrados a um grupo social, são
protagonistas de diversas ações que afetam o âmbito das
relações humanas e, conseqüentemente, as relações
profissionais.
O profissional bibliotecário, historicamente, tem sido esteriotipado
por visões tradicionais que desvalorizam a imagem da profissão,
tem sido alvo de constantes críticas no dia-a-dia de suas atividades,
posto que trabalhar com o público é uma situação
em que o profissional tende a se expor.
Os atendimentos nos balcões das bibliotecas não deixam dúvidas
quanto a isso; porém, seja o professor, o advogado, o bibliotecário,
qualquer que seja o profissional, quando ele assume uma determinada postura,
naturalmente externaliza a essência da profissão diante da ótica
do público para quem trabalha.Dependendo da forma como o profissional
desempenha suas funções ele pode conquistar ou afastar o cliente,
deixando uma imagem positiva ou negativa, que conseqüentemente pode se
refletir para todos os profissionais daquela área específica.
Serve de exemplo o ato anti-ético de um profissional bibliotecário,
que, no atendimento ao usuário, deixa de lhe dar a assistência
devida por estar no final de seu expediente. “Atrapalhado” com
o atendimento que deve prestar ao usuário, simula a não existência
do assunto para se ver livre do cliente e ganhar sua “liberdade” a
custo de uma mentira.
É lógico que em qualquer profissão existem os deveres e
os direitos. Ser um bom profissional significa também “proteger” o
público de maus profissionais e de serviços de má qualidade,
como falou aqui a nossa consultora jurídica. “É papel dos
Conselhos Federal e Regionais de Biblioteconomia garantir serviços profissionais
de qualidade para o cidadão”, que é a razão da existência
do trabalho do profissional bibliotecário. O que podemos vislumbrar como
atitudes éticas do profissional bibliotecário? Podemos dizer
que:
- ser ético é não sonegar informação;
- ser ético é atender com educação
os clientes;
- ser ético é valorizar a profissão em
quaisquer situação ou lugar em que o profissional
se encontre;
- é não ser conivente com atitudes contrárias às
normas estabelecidas pela legislação profissional;
- é interagir e comunicar-se com diferentes tipos de
público, sem discriminação de cor, raça,
nacionalidade, religião ou ideologia;
-é lutar por melhores salários e melhores condições
de trabalho;
-é engajar-se no movimento de classe, conselho, associação,
sindicatos;
-é buscar atualização contínua;
-é reivindicar uma formação profissional
de qualidade;
-é combater o exercício ilegal da profissão;
-é lutar por melhores empregos e exigir do governo
abertura de vagas para bibliotecários nas diferentes
instituições do setor público;
- é ser empreendedor, fazer valer a profissão
liberal;
Vale agora, vale enfatizar que a ética profissional não depende,
exclusivamente, de uma norma estabelecida para ser cumprida, embora os princípios
normativos sejam fundamentais para nortear a conduta da profissão. Acreditamos,
no entanto, que, aliado às normas, há algo muito anterior aos
princípios legais, que são os valores morais, as crenças,
as ideologias e a formação educativa, que regem a conduta de
cada sujeito e conduzem certamente a uma relação social mais
ampla com a sociedade e mais solidária .
Além desses aspectos não podemos esquecer que a ética
se constrói também a cada dia em que exercemos nossas atividades
profissionais, nos pequenos gestos que cultivamos nas relações
que compõem a nossa prática profissional, pautada sempre numa
relação integradora entre teoria e prática, ação
e reflexão, elementos básicos que caracterizam a PRÁXIS
PROFISSIONAL.
E finalizando esta exposição, em nome da CEP, gostaria de registrar
que esperamos que este treinamento venha contribuir para a consubstanciação
do nosso olhar sobre o tema e para o fortalecimento da integração
entre o CFB e os CRB e destes com os profissionais e com a sociedade em geral.
Nada mais oportuno aqui então que o pensamento de Jacomino (2000, p.30)
quando diz que “ser ético nada mais é do que agir direito,
proceder bem, sem prejudicar os outros”.

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