• A Biblioteca Universitária no cenário brasileiro
Mariza Russo

INTRODUÇÃO
A partir da crise econômica que se abateu sobre o Brasil, após a década de 80, que teve como reflexos o processo inflacionário e a diminuição dos orçamentos do Setor Público, as universidades passaram a conviver com restrições orçamentárias que influenciaram diretamente o desenvolvimento das bibliotecas. (GARCIA, 1991)
Esse cenário de obscurantismo estava instalado nas Bibliotecas Universitárias Brasileiras – BUs, desde a década de 60, mesmo com a resolução do Conselho Federal de Educação, em 1963, de incluir a “vinculação a uma biblioteca” como um dos requisitos para o reconhecimento dos cursos das Instituições de Ensino Superior – IES. (RUSSO, 1998a)
A implementação de ações, pelo governo, como o Programa Nacional de Bibliotecas Universitárias – PNBU, em 1986, e o Programa Nacional de Bibliotecas de Instituições de Ensino Superior – PROBIB – extintos em 1995, constituíram-se em tentativas de resolução dos problemas estruturais das BUs.
Dessa forma, as BUs vinham se ressentindo da falta de um “organismo” capaz de empreender ações voltadas para o objetivo de desenvolver propostas de modernização de suas estruturas e serviços, o qual proporcionaria sensíveis progressos ao ambiente das BUs brasileiras. (RUSSO, 1998b)
Recomendações nesse sentido eram constantes nos relatórios finais dos Seminários Nacionais de Bibliotecas Universitárias – SNBU, eventos realizados a cada dois anos, desde 1978, com o objetivo de discutir temas que levassem ao melhor desempenho das BUs.
A Comissão Brasileira de Bibliotecas Universitárias – CBBU, organismo criado durante o V SNBU, em 1987, alterando seu paradigma inicial, a partir de 1999, vem desenvolvendo ações que visam preencher essa lacuna.
A CBBU foi instituída tendo como meta principal a elaboração de diagnósticos da situação das BUs brasileiras, com a finalidade de mapear suas características e disponibilidades visando a intensificação de intercâmbio e de programas cooperativos entre elas.

PANORAMA DAS BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS BRASILEIRAS
Com base em um levantamento elaborado pela CBBU, em 1998, foi desenvolvida a base de dados BIBES – Bibliotecas de Instituições Brasileiras de Ensino Superior, atualmente, em sua 3a. edição.
A 1º edição da BIBES foi publicada pela CBBU, em parceria com o Sistema de Bibliotecas e Informação – SiBI, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, em 1994, em formato impresso, contendo informações cadastrais de 770 bibliotecas de IES brasileiras.
Na sua 2a. edição, através da mesma parceria, a BIBES foi atualizada e, dessa vez, lançada em formato eletrônico, armazenada em disquete, contendo os dados cadastrais de 1.014 BUs brasileiras, as quais responderam aos questionários enviados pela CBBU, em 1997/1998 .
Com o avanço das tecnologias de informação no ambiente das bibliotecas, o intercâmbio e a cooperação foram muito facilitados e a CBBU, ainda em parceria com o SiBI/UFRJ, iniciou a realização da 3a. edição da BIBES, com a finalidade de divulgar os dados cadastrais das BUs, via WEB.
A tarefa foi iniciada em agosto de 2002, com o desenvolvimento de um questionário, o qual foi enviado para 1.444 BUs, através de correio eletrônico, tendo obtido resposta de 679 BUs.
Com base na 3a. edição está sendo apresentado, nesse trabalho, um panorama das BUs brasileiras, para que esse diagnóstico venha a servir como base para se efetuar análises sobre a situação atual e a necessidade de ações futuras, que venham a contribuir para a melhoria de seu desempenho.
CONCENTRAÇÃO FÍSICA DAS BUs
A criação das bibliotecas universitárias brasileiras acompanha a criação das Universidades no Brasil, as quais foram surgindo nos pólos de concentração populacional, em face à uma demanda natural por educação e formação.
O cenário descrito no QUADRO, a seguir, apresenta a distribuição das BUs cadastradas na 3a. ed. da BIBES, por estado e por região brasileira.
O universo considerado para a análise dos dados constitui-se nas 679 instituições cadastradas na BIBES, até o lançamento da 3a. edição, visto que as 765 restantes não confirmaram suas informações.

DISTRIBUIÇÃO DAS BUs BRASILEIRAS POR REGIÃO

REGIÕES ESTADOS QUESTIONÁRIOS ENVIADOS QUESTIONÁRIOS RECEBIDOS
NORTE Acre 1 1
  Amazonas 12 3
  Amapá 5 1
  Pará 51 29
  Rondônia 25 8
  Roraima 3 3
  Tocantins 2 1
Total   99 46
NORDESTE Alagoas 1 0
  Bahia 71 32
  Ceará 31 27
  Maranhão 14 4
  Paraíba 3 1
  Pernambuco 24 2
  Piauí 1 1
  Rio Grande do Norte 20 19
  Sergipe 4 1
Total   169 87
SUDESTE Espirito Santo 27 10
  Minas Gerais 135 57
  Rio de Janeiro 266 169
  São Paulo 219 88
 Total   647 324
SUL Paraná 88 36
  Rio Grande do Sul 228 112
  Santa Catarina 81 43
 Total   397 191
CENTRO OESTE Distrito Federal 39 13
  Goiás 64 10
  Mato Grosso 10 2
  Mato Grosso do Sul 19 6
 Total   132 31
 Total Geral   1.444 679

Verifica-se, no Quadro, que a maior concentração das BUs brasileiras apresenta-se na região sudeste, que conta com cerca de 48% do número total de bibliotecas, distribuídas entre 4 estados brasileiros.
Em seguida, aparece a região sul, com 28% do universo de BUs, distribuídas em 3 estados; logo após situa-se a região nordeste, com cerca de 13% do total de BUs, distribuídas em 9 estados, e por fim as regiões norte com cerca de 7% e centro-oeste com cerca de 5% do total de BUs, distribuídas em 7 e 4 unidades federativas, respectivamente.
Analisando-se esses dados, pode-se inferir que essa concentração das BUs nas regiões sudeste e sul vem ratificar os investimentos realizados ao longo de muitos anos nessas regiões, fato que contribuiu para as disparidades regionais que se fazem presentes nas BUs brasileiras.
Essa concentração física é quase que diretamente proporcional à distribuição da população pelas regiões brasileiras, segundo dados da Fundação IBGE, que apresenta, também, a maior concentração populacional na região sudeste.
POLÍTICAS RECOMENDADAS PARA AS BUs
Através dos séculos, as bibliotecas têm sido o repositório do conhecimento das universidades, com vistas a transmiti-lo para novas gerações.
No caso das BUs, elas possuem a missão de prover a infra-estrutura bibliográfica, documentária e informacional para apoiar as atividades da Universidade, centrando seus objetivos nas necessidades de informação do indivíduo, membro da comunidade universitária. (TARAPANOFF, 1981)
Modernamente, as BUs podem ser consideradas como um portal para o mundo de informações, dentro da era do conhecimento.
O problema de baixos investimentos nas universidades tem afetado profundamente o desempenho das BUs e, conseqüentemente, vem comprometendo sua imagem perante sua comunidade usuária.
Espaços, pessoal, acervos, produtos e serviços precisam ser repensados, a fim de que as demandas sejam minimamente atendidas e se possa reverter o quadro de insatisfação que envolve as BUs.
Apontar que a biblioteca universitária constitui-se em um elemento vital da Universidade não pode mais ser usado como parte da retórica dos trabalhos escritos e dos discursos que circundam as atividades de ensino, pesquisa e extensão nas IES brasileiras.
A Biblioteca Universitária presta, sem dúvida, um serviço essencial para toda a Universidade, pois na era da informação, com a multi-disciplinaridade proeminente, uma Instituição que queira preparar seu corpo docente, que por sua vez deverá repassar os conhecimentos para seu corpo discente, não pode se permitir ignorar os investimentos na sua principal porta de contato com o mundo.
Nesse sentido, mudanças consideráveis devem ser planejadas, com vistas a apontar saídas para que a Biblioteca Universitária do século XXI se apresente como a Unidade de Informação perfeitamente integrada ao ambiente informacional deste século.

CONCLUSÃO
Este, sem dúvida, é um momento histórico que se está vivendo, visto que a biblioteca universitária pode ser considerada como um umbral da Sociedade da Informação.
Nessa era, como em todas as outras que se fizeram presentes, ocorre uma evolução natural das espécies e agora não serão os mais fortes, nem os maiores que vão sobreviver e sim os que forem mais maleáveis a mudanças.
A principal mudança é a tecnológica, que veio propiciar para toda a população o acesso à informação, criando o que se popularizou chamar de Sociedade da Informação. (TARAPANOFF, 1997).
Muito se tem falado sobre o fim das bibliotecas, mais precisamente sobre o abandono à consulta física aos seus acervos. Na opinião de personalidades conceituadas como Bill Gates (1995), fundador e proprietário da Microsoft Inc. e Nicholas Negroponte (1995) quando diretor do Massachussets Institute of Technology – MIT, a informação fluirá para onde quer que o interessado esteja, bastando que este esteja acessando uma workstation conectada a uma rede de comunicação de dados.
Por outro lado, países como a França e a Inglaterra estão investindo em novos e enormes edifícios para abrigar suas bibliotecas nacionais, edifícios esses que parecem representar mesmo a antítese da biblioteca sem muros que alguns autores acenam. (VERGUEIRO, 1997).
A afirmativa mais equilibrada é que a substituição total da biblioteca tradicional pela biblioteca eletrônica é bem improvável, se não impossível.
No entanto, essa biblioteca dos tempos atuais terá que oferecer uma composição de produtos e serviços – impressos e eletrônicos – onde deverão ser exploradas as vantagens de cada um desses suportes.
Esse é o modelo da Biblioteca Universitária que a comunidade científica de hoje está exigindo.
Organizar e gerenciar essa “nova biblioteca universitária” consiste em um desafio para o profissional bibliotecário, que deve buscar se qualificar de acordo com as necessidades desse novo ambiente informacional, de modo a tornar cada vez mais efetivo o desempenho das unidades de informação, ampliando e melhorando a imagem dessas organizações. Só assim poderão conquistar e manter o respeito da sociedade e, conseqüentemente, o apoio governamental merecido. É com esse paradigma que a Comissão Brasileira de Bibliotecas Universitárias – CBBU - está se propondo a atuar à frente das BUs brasileiras, nessa era atual.


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PALESTRA SOBRE: ÉTICA E O PROFISSIONAL BIBLIOTECÁRIO
Rita Gonçalves Marques Portella Ferreira* Profª Ms UFMA e Coordª da CEP/CFB

INTRODUÇÃO

Quero, em nome da Comissão de Ética Profissional – CEP do Conselho Federal de Biblioteconomia - CFB, dar as boas vindas a todos os colegas participantes deste Treinamento.
Quero apresentar-lhes os componentes da CEP. Peço que cada membro faça sua auto-apresentação.
Quero agora dizer-lhes que é um prazer enorme e uma honra participar deste evento, que considero muito importante, tendo já em vista os reflexos que, com certeza, atingirão os bibliotecários brasileiros, uma vez que aqui se encontram representantes de todos os CRB de todas as Unidades da Federação Brasileira.
Desejo que esse momento seja agradável e proveitoso para todos nós. Ele também é um encontro. O encontro de uma comunidade de dirigentes dos Conselhos Federal e Regional de Biblioteconomia. É um momento raro que deve, por isso mesmo, ser aproveitado da melhor maneira possível.
Esta parte do treinamento diz respeito à ética profissional do bibliotecário, cujo objetivo, através deste espaço criado, é expor e discutir as questões referentes à ética na biblioteconomia, na perspectiva de promover maior socialização dessas questões para o desencadeamento de ações educativas na conduta do bibliotecário, tanto na sua atuação profissional, quanto no exercício da cidadania.
E isto é um processo que deve ser desenvolvido e compartilhado com os CRB.
Professora da Universidade Federal do Maranhão. Mestre em Ciência da Informação. Coordenadora da Comissão de Ética Profissional do Conselho Federal de Biblioteconomia
Portanto, a CEP não mediu esforços, e, apesar das dificuldades enfrentadas pela distância geográfica entre seus membros, confeccionou e organizou em um só documento todo o material que produziu para dar suporte e maior aproveitamento, o qual será entregue para todos os participantes.
Foi um trabalho árduo e meticuloso que se iniciou desde o do mês de janeiro e que teve como marco inicial, o índice da legislação do CFB sobre ética.
O treinamento está estruturado em três partes: na primeira será trabalhado o conteúdo da legislação sobre ética (Resoluções do CFB 339/93, 40/2001/42/2002); na segunda, sobre os procedimentos das ações éticas pelas CEP; e, na terceira, a aplicação de casos práticos para serem solucionados com base na instrumentação legal do CFB sobre ética.
Ética, como todos nós sabemos, é um tema complexo que envolve o homem em todas as suas relações sociais, quer no exercício na profissão, quer na sua convivência em comunhão com outros homens. Diante da complexidade do tema, fiz um recorte a respeito da ética voltada para o profissional bibliotecário , buscando debater qual o significado do termo “ética”, do ponto de vista teórico e prático, seus fundamentos históricos e sua relação no mundo atual, demarcado por mudanças nos campos político, econômico, tecnológico, científico, sócio-cultural e religioso.
Na literatura encontramos inúmeros conceitos de ética: ética como uma diretriz pela qual o ser humano rege o seu comportamento, na escolha do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto, tendo como objeto desse processo o sujeito e os valores morais; ética como conjunto de valores morais que se devem observar no exercício de uma profissão; ética como conjunto das práticas morais de uma sociedade (SILVA, 2001, p. 20); ética como área da filosofia que investiga os problemas colocados pelo agir humano, enquanto relacionado com valores morais (SEVERINO, 1994, p. 196); ética como conjunto de princípios que rege ou orienta a ação das pessoas e das sociedades na busca do equilíbrio dessa ação; ética como conjunto de normas que determina a conduta das pessoas ou o funcionamento das instituições (CHAGAS, 2002, p.16).
No mundo atual, as questões éticas estão relacionadas com o ideal de cidadania, onde a ética vem somada ao sentido de conduta como forma de educar cidadãos. Na visão de Maciel (1989, p. 6), a educação para a cidadania “é o caminho por onde chega a consciência dos direitos e deveres das pessoas”. Protágoras já indagava sobre “que tipo de educação leva à virtude”, e temos consciência de que esta é a cidadania. Apesar de que algumas pessoas, setores ou segmentos estejam considerando-a como algo superado, muito pelo contrário, hoje a ética se renova pela sua capacidade de possibilitar uma vivência, uma solidariedade social.
Os acontecimentos como guerras religiosas, clonagem humana, política, corrupção são resultados de uma sociedade criada pelo sistema capitalista, que esconde, ou tenta esconder sua própria criação - a miséria humana. Por exemplo, a guerra santa do Iraque, a comercialização dos genes humanos.Será que isso não significa o fim da privacidade genética humana a exemplo do que foi publicado na Revista Proposta,sobre o fato de que o governo irlandês vendera as informações genéticas de toda a população do país (270 mil pessoas) em fevereiro de 2000? Isso tem respaldo ético? Se em uma sociedade democrática cada pessoa não é dona de seus próprios genes e não tem o direito de decidir sobre sua intimidade genética, o que lhe resta para garantir sua dignidade humana?
Entendemos que a mundialização do capital não seja o único responsável pelo déficit ético que assola o mundo, mas, com certeza, é um dos principais fatores do processo de degradação social. A história é palco de grandes acontecimentos que comprovam que a falta e a transgressão da ética é algo historicamente congênito, isto é, a ausência da ética se tornou uma adaptação progressiva no homem perante suas condições de vida, tanto para com ele próprio, quanto para com o grupo a que pertence.
Apesar dessa diversidade conceitual ainda é visível a carência de atitudes éticas nas relações humanas, constituindo-se na crise social e política que ora assola o mundo, como as diferentes formas de violência contra a criança, os idosos, a mulher, de preconceito racial, de terrorismo, de egoísmo, de diferenças sociais, enfim, resultando tudo em déficit ético, que faz com que a razão não estabeleça os critérios capazes de situar o homem criticamente no mundo, através de relações afetivas.
Do ponto de vista econômico, os mercados financeiros impõem suas premissas, fortalecendo o fenômeno da globalização que atinge os países dos diferentes continentes, ditando as normas e estabelecendo outros tipos de relações humanas e sociais, onde a competitividade, o individualismo e o domínio das tecnologias se estabelecem como as palavras de ordem no atual mundo globalizado.
Do ponto de vista profissional, os reflexos da globalização e dos avanços das Tecnologias de Informação e de Comunicação – TIC’s vêm afetando significativamente o mundo do trabalho e, conseqüentemente, a formação de profissionais nas diferentes áreas de conhecimento.
No campo da Ciência da Informação e da Biblioteconomia esses impactos são evidentes e reais, redefinindo as práticas do profissional da informação e sua relação social com o mundo, delineando assim novas formas de ser, pensar, fazer, interagir, comunicar e produzir.
Esse modelo de sociedade nos remete a profundas reflexões e questionamentos sobre que tipo de ética se instala no atual contexto caracterizado por profundas mudanças paradigmáticas, como: pós-modernidade, neocapitalismo, tecnologia informática, internet, mídia eletrônica, clonagem, teleeducação, dentre outras.
Por outro lado, nos perguntamos se na realidade brasileira estamos vivendo a era da sociedade da informação e da informatização, se considerarmos o processo de exclusão social da maioria da sociedade que vive a síndrome da miséria e da falta de condições básicas de sobrevivência. Afinal, que perfil de profissional ético devemos formar para atender essa complexidade da sociedade brasileira, sem perder de vista os fatores conjunturais que caracterizam o mundo globalizado?
Aqui, ressaltamos a ética do eu consigo mesmo, com o outro e com o grupo. A ética do eu entende a virtude como sendo o exercício do bem consciente, algo intrínseco que parte do ser e reflete no grupo ou para com o outro. tem seus costumes caracterizadamente impostos para a conduta do indivíduo, regras do tipo: não mate, não roube, não fume, não destrua a natureza, etc. A ética do eu e a ética do outro estão subordinadas a uma ética pública, uma vez que é guiada pela única virtude - a justiça.
A ética nasce de uma escolha individual, quer seja do grupo ou não, onde o sujeito ético só existe quando tende a conhecer a existência do outro, interagindo e respeitando os limites individuais e coletivos e as diferenças, o maior desafio nas relações humanas.
É nesse contexto da ética do eu para com o outro e para com o grupo (sociedade) é que se fundamentam os princípios da ética e da cidadania, os quais são o fundamento para o exercício da prática profissional.
Hoje, qual a concepção que temos sobre ética? É possível se falar de uma “ética bibliotecária”? Por que essa temática tem sido objeto de discussão com freqüência nos eventos dos mais diversos segmentos da sociedade? Como se constrói uma ética profissional? A inclusão de disciplinas nos currículos dos cursos de Biblioteconomia e Ciência da Informação, assim como a instituição do Código de Ética Profissional pelo CFB garantem a formação de um profissional ético, no verdadeiro sentido da palavra?
Entendemos que a construção da ética está atrelada a um processo educativo que se desenvolve desde a mais tenra idade (se inicia na família e na religião) e evolui a partir das relações sociais e afetivas que mantemos com o coletivo. Essas relações, por sua vez, estão fundamentadas por ideologias, sonhos, projetos e ações que buscam alcançar objetivos comuns que contribuam para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos e para o exercício de práticas cidadãs.
Nessa perspectiva, acreditamos que o papel dos profissionais da informação, em destaque o bibliotecário, assume maior relevância social, posto que este profissional tem como instrumento de trabalho “a informação”, insumo básico para o desenvolvimento da sociedade.
Aqui ressaltamos a importância dos Conselhos Federal e Regionais de Biblioteconomia e dos demais orgãos de classe, como agências sociais e educativas que muito contribuem para a formação política e ética dos bibliotecários.l.
A ética profissional também teve suas origens na Grécia Antiga, no período em que as organizações do trabalho não eram norteadas pelas profissões, e sim pelo trabalho escravo, quando Platão ensinava como obedecer regras para ser um escravo virtuoso.
Na década de 80, do século XX, a ética profissional surgiu nas empresas, devido à redução das hierarquias, o que, conseqüentemente fez diminuir a autonomia das pessoas. A partir daí, mesmo com a diminuição dos organogramas nas empresas, o nível de competição para obtenção de cargos maiores aumentou, dando espaço à concorrência. Como o objeto da ética profissional é justamente conseguir a convivência com outros profissionais e a profissão, estabeleceu-se uma ordem necessária ao bem comum, cuja virtude fundamental é a honestidade.
Portanto, a criação dos Códigos de Ética nas profissões surgiu após a regulamentação de cada profissão como profissão legal. Como exemplo, pode ser citada a regulamentação da Profissão de Bibliotecário, através da Lei 4084 de 30 junho de 1962, que possibilitou a criação do primeiro Código de Ética do Profissional Bibliotecário, aprovado em 1963, no IV CBBD,em Fortaleza.
Nesse contexto estão os códigos de ética como instrumentos não apenas punitivos, mas de conscientização das ações, dos direitos e dos deveres de cada profissional para com o colega, para com os outros e para com o público.
Todos esses requisitos legais dos deveres e dos direitos que competem ao profissional bibliotecário são responsabilidades de cunho ético. De que forma, no entanto, o profissional deve estar ciente destas aplicabilidades éticas? Seguramente com o ensino dessas prerrogativas éticas nas escolas de biblioteconomia, isto é, com a inserção de disciplinas que abordem o tema ética profissional, e não somente através do juramento proferido pelo formando no ato de sua formatura no final do Curso. Em pesquisa recentemente realizada, apenas três Escolas de Biblioteconomia oferecem a disciplina ética. Nas demais, ela constitui apenas uma unidade dentro do conteúdo de outra disciplina. De que formas os Conselhos poderão atuar, mais intensamente, no processo educativo de formação ética educativo dos profissionais bibliotecários? Já que o trabalho educativo parece precário, será que podemos estar seguros de que os bibliotecários estão executando suas atividades profissionais pautadas nos princípios da ética? Qualquer que seja o profissional, ele deve conhecer e vivenciar a sua legislação, bem como valor social do seu trabalho, jamais se esquecendo do porquê do seu saber fazer especialmente porque todo trabalho se faz com e para outros, com e para a sociedade. Deve, portanto, agir eticamente, sempre.
Todos os cidadãos são integrados a um grupo social, são protagonistas de diversas ações que afetam o âmbito das relações humanas e, conseqüentemente, as relações profissionais.
O profissional bibliotecário, historicamente, tem sido esteriotipado por visões tradicionais que desvalorizam a imagem da profissão, tem sido alvo de constantes críticas no dia-a-dia de suas atividades, posto que trabalhar com o público é uma situação em que o profissional tende a se expor.
Os atendimentos nos balcões das bibliotecas não deixam dúvidas quanto a isso; porém, seja o professor, o advogado, o bibliotecário, qualquer que seja o profissional, quando ele assume uma determinada postura, naturalmente externaliza a essência da profissão diante da ótica do público para quem trabalha.Dependendo da forma como o profissional desempenha suas funções ele pode conquistar ou afastar o cliente, deixando uma imagem positiva ou negativa, que conseqüentemente pode se refletir para todos os profissionais daquela área específica.
Serve de exemplo o ato anti-ético de um profissional bibliotecário, que, no atendimento ao usuário, deixa de lhe dar a assistência devida por estar no final de seu expediente. “Atrapalhado” com o atendimento que deve prestar ao usuário, simula a não existência do assunto para se ver livre do cliente e ganhar sua “liberdade” a custo de uma mentira.
É lógico que em qualquer profissão existem os deveres e os direitos. Ser um bom profissional significa também “proteger” o público de maus profissionais e de serviços de má qualidade, como falou aqui a nossa consultora jurídica. “É papel dos Conselhos Federal e Regionais de Biblioteconomia garantir serviços profissionais de qualidade para o cidadão”, que é a razão da existência do trabalho do profissional bibliotecário. O que podemos vislumbrar como atitudes éticas do profissional bibliotecário? Podemos dizer que:

- ser ético é não sonegar informação;

- ser ético é atender com educação os clientes;

- ser ético é valorizar a profissão em quaisquer situação ou lugar em que o profissional se encontre;

- é não ser conivente com atitudes contrárias às normas estabelecidas pela legislação profissional;

- é interagir e comunicar-se com diferentes tipos de público, sem discriminação de cor, raça, nacionalidade, religião ou ideologia;

-é lutar por melhores salários e melhores condições de trabalho;

-é engajar-se no movimento de classe, conselho, associação, sindicatos;

-é buscar atualização contínua;

-é reivindicar uma formação profissional de qualidade;

-é combater o exercício ilegal da profissão;

-é lutar por melhores empregos e exigir do governo abertura de vagas para bibliotecários nas diferentes instituições do setor público;

- é ser empreendedor, fazer valer a profissão liberal;

Vale agora, vale enfatizar que a ética profissional não depende, exclusivamente, de uma norma estabelecida para ser cumprida, embora os princípios normativos sejam fundamentais para nortear a conduta da profissão. Acreditamos, no entanto, que, aliado às normas, há algo muito anterior aos princípios legais, que são os valores morais, as crenças, as ideologias e a formação educativa, que regem a conduta de cada sujeito e conduzem certamente a uma relação social mais ampla com a sociedade e mais solidária .
Além desses aspectos não podemos esquecer que a ética se constrói também a cada dia em que exercemos nossas atividades profissionais, nos pequenos gestos que cultivamos nas relações que compõem a nossa prática profissional, pautada sempre numa relação integradora entre teoria e prática, ação e reflexão, elementos básicos que caracterizam a PRÁXIS PROFISSIONAL.
E finalizando esta exposição, em nome da CEP, gostaria de registrar que esperamos que este treinamento venha contribuir para a consubstanciação do nosso olhar sobre o tema e para o fortalecimento da integração entre o CFB e os CRB e destes com os profissionais e com a sociedade em geral. Nada mais oportuno aqui então que o pensamento de Jacomino (2000, p.30) quando diz que “ser ético nada mais é do que agir direito, proceder bem, sem prejudicar os outros”.



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