Que leitores queremos?

Moacyr Scliar
Escritor


Em primeiro lugar, temos de decidir se queremos mesmo leitores. Afinal, não faz muito tempo que a alfabetização se disseminou e não faltam pessoas que defendam hoje a cultura da imagem, que teoricamente substituiria a cultura da palavra, de acordo com o slogan segundo o qual uma imagem vale mais do que mil palavras.

Trata-se de um raciocínio equivocado. Para começar, e como disse Millôr Fernandes, a imagem só pode se transformar em instrumento de comunicação quando podemos dela falar - usando palavras. Das coisas que nos caracterizam como seres humanos, que nos diferenciam de outras espécies, a palavra é a mais importante. E a palavra escrita, por sua vez, adquire característico de
transcendência. Não é por acaso que as grandes religiões baseiam-se em textos escritos: a Bíblia hebraica, o Novo Testamento, o Corão. "Estava escrito": a expressão árabe maktub expressa esse caráter quase de destino que tem o texto.

A invenção do alfabeto foi uma das grandes conquistas da humanidade, como o foi o livro impresso - um objeto que, pela carga de informação (e de emoção) que pode transportar e, por sua praticidade, venceu o teste do tempo. O livro de hoje é praticamente igual àqueles que Gutemberg imprimia. O jornal ainda é semelhante ao do século 18. Enquanto isso, sumiram os discos de vinil, as câmeras de 8 milímetros, as máquinas polaróide. Continuamos lendo como liam os nossos antepassados. Não: lemos muito mais. Em primeiro lugar, porque o contingente de alfabetizados aumentou em todo o mundo e sobretudo no Brasil: em meados do século passado praticamente metade de nossa população era analfabeta.

O hábito da leitura é hoje artigo de primeira necessidade. Escrever e ler fazem parte do modo de ser em nosso mundo, como falar, escutar, olhar. E, na formação do hábito da leitura, a ficção desempenha um papel importante pela simples razão de que contar e ouvir histórias está embutido em nosso genoma, é algo que acompanha a humanidade desde há muito tempo. No começo era o
mito, aquela narrativa fantasiosa que passava de geração em geração e servia para proporcionar explicações sobre coisas que intrigam e atemorizam as pessoas: a origem do universo, o surgimento da vida, a morte. Essas explicações, substituindo um conhecimento o mais das vezes inexistente (e que, em muitos aspectos continua inexistente) tinha o grande mérito de neutralizar a ansiedade, esta constante acompanhante do gênero humano.

Não é de admirar que textos fundadores da cultura, como é o caso da Bíblia, assumam a forma de um conjunto de narrativas que fascinam leitores geração após geração. E também não é de admirar que crianças gostem tanto de ouvir histórias, coisa que os pais conhecem bem: eles sabem que a maneira de convencer filhos pequenos a ir para a cama é justamente essa, propor-se a contar-lhes uma história. Histórias reúnem conhecimento, emoção e prazer - aliás, Prazer do texto foi o título que o ensaísta francês Roland Barthes deu a um de seus livros.

Depois dos pais vem a escola, que hoje desempenha papel transcendental na iniciação dos jovens na literatura. Papel que, diga-se de passagem, vem sendo muito adequadamente cumprido, coisa da qual posso dar testemunho pessoal, já que freqüentemente dou palestras em escolas e universidades. A criatividade revelada por professores e alunos encanta - e comove. A própria presença do escritor nas escolas já é um grande avanço em relação à época em que escritor, para ser bom, não poderia estar vivo - tinha de estar morto, de preferência há muito tempo. Os jovens se dão conta de que, atrás da obra literária, há uma pessoa como eles, com quem podem dialogar e trocar idéias.

Mas o escritor também deve estar atento às peculiaridades do público jovem. Isso não significa fazer concessões, mas, sim, trabalhar com alguns critérios. Assim, os personagens devem ser crianças ou jovens (interagindo ou não com adultos). Em segundo lugar, a temática deve interessar ao leito infanto-juvenil - por exemplo, as relações pais-filhos. Terceiro: a história deve ter uma seqüência lógica, evitando, quando possível, flashbacks e outros recursos ficcionais mais complicados. Por último, mas não menos importante, a linguagem - sem deixar de ser literária! - deve ser acessível.

O gosto pela leitura é uma conseqüência da maneira como a históriaé escrita. Se o escritor teve prazer (e se recorreu à emoção), o jovem leitor gostará (ou não). Agora: se o escritor fez seu trabalho por obrigação, para doutrinar, aí a possibilidade de insucesso é grande. Mas transformar a leitura num dever, numa obrigação curricular, pode ser um equívoco. Assim, a pergunta básica que um professor deveria fazer a um aluno, após a leitura de um texto não é: O que o autor quis dizer?, mas, sim: O que é que você sentiu
lendo esse texto? Porque, em educação, a emoção precede a cognição, e a cognição ajuda a despertar mais emoção.


Fonte: Correio Braziliense, 11/3/2006





 

 

© 2002-2007 CFB - Conselho Federal de Biblioteconomia