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Na era do conhecimento, a profissão de bibliotecário passa por profundas mudanças e o resultado é uma carreira mais dinâmica, melhor remunerada e com várias possibilidades de atuação

Por Heloísa Noronha
Esqueça o velho clichê da atendente ranzinza e mau-humorada, que passa os dias preenchendo fichas atrás de um balcão e guardando livros na estante. Tire da cabeça também as idéias equivocadas de que as bibliotecárias (sim, até bem pouco a atividade era associada principalmente às mulheres) escolheram sua profissão apenas porque almejavam uma carreira pouco concorrida, na época de prestar o vestibular, e de que a classe é ressentida por não ver sua cultura reconhecida.
“ Infelizmente, a profissão de bibliotecário ainda não tem a representatividade social que merece, e talvez isso decorra dos equívocos nacionais praticados em termos de política e projetos de educação e de cultura. As bibliotecas ainda são os locais de trabalho mais visíveis da profissão e não se podem desconsiderar que as bibliotecas públicas e escolares, quando existem, são precárias de estruturas e serviços. Não é sensato, pois, esperar que as pessoas possam ter uma visão correta da profissão com um quadro pintado com essas cores. Isso é realmente impossível. Portanto, não acho que grande parte da população tenha uma idéia errada da profissão. As pessoas simplesmente não fazem idéia do que seja essa carreira”, opina Raimundo Martins de Lima, presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB).
Na prática, o bibliotecário trabalha como um administrador de dados, que também processa e dissemina a informação. Além de catalogar e guardar os dados, ele orienta sua busca e seleção e controla as operações de empréstimo (no caso das bibliotecas). É de sua responsabilidade planejar, implementar e gerenciar sistemas de informação, além de preservar os suportes (mídias) para que resistam ao tempo e ao uso. Em alguns casos, atende o público e costuma conviver com profissionais das áreas de Educação e Administração.
O mercado de trabalho é especialmente aquecido em cidades com grande concentração de empresas – mas, nesse caso, a quantidade de escolas e universidades também soma pontos. No setor de educação, as vagas aparecem tanto em instituição da rede pública quanto da particular.
No momento, as áreas de gestão de serviços de informação e do conhecimento são as que apresentam melhores perspectivas de crescimento. No entanto, exigem boa qualificação, domínio de ferramentas de informática e de, no mínimo, a fluência em um idioma estrangeiro. “A característica multidisciplinar da profissão garante ao bibliotecário amplo campo de trabalho em relação às áreas do conhecimento”, assegura Elayne Schlogel, presidente do Sindicato dos Bibliotecários do Paraná. Ou seja, existem oportunidades em museus, editoras, empresas de comunicação, provedores de internet, ONGs, clubes e associações. Sua atuação se volta cada vez mais para a criação e a manutenção de arquivos digitais e para a montagem de banco de dados em computadores, empregando sistemas de informática e a internet.

Nichos de atuação
É possível trabalhar com análise da informação, por exemplo, e avaliar, selecionar, classificar e indexar livros, documentos, fotos, partituras musicais, fitas de vídeo e de áudio e arquivos digitais. Outro ramo de atividade é a gestão de serviços de informação, que consiste em planejar, organizar e administrar bibliotecas e centros de documentação, além de coordenar a formação do acervo, o arquivamento dos documentos e sua conservação.
Já a gestão do conhecimento significa desenvolver e gerenciar mecanismos para sistematizar o conhecimento acumulado dentro de uma organização, seja ela uma empresa, uma ONG, uma escola ou uma associação, estimulando sua divulgação. E também se pode trabalhar com normatização, montando e mantendo bases de dados, com o emprego de normas internacionais de padronização.
De acordo com Mariza Russo, do Conselho Regional de Biblioteconomia do Rio de Janeiro, um iniciante ganha, em média, R$ 1.500 mensais. “Mas o mercado apresenta dados de remunerações de cerca de R$ 5 mil para profissionais mais experientes”, destaca. Um concurso público para a Câmara Legislativa do Distrito Federal, em novembro último, garantia a remuneração de R$ 8.086,54 por 40 horas semanais para quem conquistasse uma das duas vagas existentes.

Formação e outros requisitos
No Brasil, a profissão de bibliotecário requer, por lei e decreto federais, formação superior em Biblioteconomia – curso com duração de quatro anos. Em alguns países pode-se ter formação em outra área e depois concluir um mestrado em Biblioteconomia para trabalhar no setor. “Temos o Conselho Federal de Biblioteconomia e os Conselhos Regionais que fiscalizam tudo, para evitar a interferência de pessoas de outros segmentos”, sentencia Carmelia Regina de Mattos, vice-coordenadora do Colegiado do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A grade curricular tem como disciplinas básicas língua portuguesa, inglês e literatura. As específicas incluem aulas sobre planejamento e automação de bibliotecas, conservação, controle bibliográfico dos registros do conhecimento e métodos de pesquisa e tecnologia da informação. O estágio é obrigatório e exige-se também uma monografia de conclusão de curso.
Para quem deseja se especializar, há cursos de pós-graduação (lato e stricto sensu) na área de Ciência da Informação. O programa, bastante procurado por executivos, foca os processos de comunicação e estudos de planejamento e gestão da informação. Existem, ainda, especializações em administração de banco de dados, voltados para profissionais que necessitam incrementar os conhecimentos em informática.
Algumas instituições oferecem chances de especialização fora do Brasil, um verdadeiro sonho de consumo para, principalmente, os apaixonados por livros. É o caso da bibliotecária Ursula Blattman, de Florianópolis (SC), que participou recentemente de um intercâmbio na Alemanha com o apoio da federação dos bibliotecários alemães e do Instituto Goethe, de São Paulo (SP), que todo ano indica um profissional da América Latina para visitar bibliotecas mundo afora. “Pude fazer meu roteiro”, conta. “Escolhi bibliotecas na cidade de Stuttgart, como a Biblioteca do Estado de Baden Wurttenber, que conta com uma coleção de mais de três milhões de livros. E tive a chance de falar sobre minha experiência no Brasil durante uma palestra sobre bibliotecas digitais no país.” Em tempo: Estados Unidos, Inglaterra, França e Espanha são os países mais procurados para doutorado e mestrado.
Além da boa formação e bagagem cultural, um bom bibliotecário precisa saber interagir com as pessoas, buscar o conhecimento não só nos livros, revistas e jornais, mas também em músicas, comerciais, filmes etc., desenvolver práticas criativas e inovadoras para trabalhar com as informações e se interessar por novas tecnologias.
Na era da internet, esse último pré-requisito é mais do que essencial: é obrigatório. Na rede há um crescente e incontável número de informações disponíveis que necessitam ser organizadas, ordenadas, filtradas e recuperadas. Ninguém mais preparado que um profissional de Biblioteconomia para lidar com tudo isso. “Certamente aumentaram em 50% as oportunidades de emprego para o bibliotecário por causa da internet. O bibliotecário pode não só atuar em empresas provedoras, como dentro da própria rede, com serviços personalizados de indexação e organização do conhecimento disponível na rede, facilitando a busca e a escolha da informação de seus clientes”, afirma o professor João Bosco Rodrigues de Oliveira, coordenador do curso de Biblioteconomia das Faculdades Integradas Coração de Jesus (FAINC), de Santo André (SP).
Já Raimundo Martins de Lima, do CFB, sustenta que a internet é instrumento e meio, não um fim, pois as realidades sociais presentes no Brasil não são lineares nem em natureza nem em nível técnico. Em outras palavras, não se disseminou completamente pelo país. Mas, mesmo assim, favoreceu a abertura de novas vagas e modernizou uma área tão importante, que vem conquistando pouco a pouco a devida importância.


Profissionais em destaque
Graduado em 1998 em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Michelângelo Mazzardo Marques Viana exerce há seis anos a função de bibliotecário de suporte na Biblioteca Central Irmão José Otão da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), gerenciando o sistema de automação e prestando apoio técnico às atividades dos demais bibliotecários. Internauta convicto, no início de 1999 ele foi convidado para ser o editor do Guia de Biblioteconomia do Projeto SobreSites (www.sobresites.combr/biblioteconomia), uma espécie de bíblia da área, referência para os profissionais do setor.
“ Foi uma excelente oportunidade para aplicar tudo o que aprendi na faculdade. Trabalhei durante cinco meses para produzir o conteúdo do site, que foi ao ar pela primeira vez em outubro de 2001, e desde então está sendo atualizado periodicamente e acessado por centenas de pessoas todos os meses. Estou contente”, conta Michelângelo. “Nosso objetivo maior é aproximar os indivíduos que produzem conhecimento de quem precisa desse conhecimento. E, ainda, precisamos ser capazes de promover a leitura, facilitar a pesquisa e o aprendizado, disseminar a cultura e contribuir para a formação de melhores cidadãos”, acredita.
Já a bibliotecária Claudia Teresinha Stocker, de Aracaju (SE), transformou a paixão pela leitura e o senso de organização em carreira. Hoje é presidente da Associação dos Bibliotecários de Sergipe e batalha para mostrar à sociedade quem é, de fato, o bibliotecário e como é seu trabalho. “Falta marketing em nosso meio”, diz. “Temos que acabar com essa visão errada de que o campo de atuação profissional é somente a biblioteca. Lidamos com a informação, indispensável no mundo moderno, e, portanto, temos um vasto campo de atuação, inclusive em bancos, hospitais e na área jurídica.”
Claudia aponta, ainda, a internet como o nicho de mercado mais promissor e ressalta que o aprimoramento é essencial. “Vale a pena se manter em constante atualização, participando de cursos, encontros e congressos, e ficar por dentro do que está acontecendo na Biblioteconomia em outros lugares, dentro e fora do Brasil.”

 





 

 

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