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fonte: http://www.vencer.com.br/
Na era do conhecimento, a profissão de bibliotecário
passa por profundas mudanças e o resultado é uma
carreira mais dinâmica, melhor remunerada e com várias
possibilidades de atuação
Por Heloísa Noronha
Esqueça o velho clichê da
atendente ranzinza e mau-humorada, que passa os dias preenchendo
fichas atrás de um balcão e guardando livros
na estante. Tire da cabeça também as idéias
equivocadas de que as bibliotecárias (sim, até bem
pouco a atividade era associada principalmente às mulheres)
escolheram sua profissão apenas porque almejavam uma
carreira pouco concorrida, na época de prestar o vestibular,
e de que a classe é ressentida por não ver sua
cultura reconhecida.
“
Infelizmente, a profissão de bibliotecário ainda
não tem a representatividade social que merece, e talvez
isso decorra dos equívocos nacionais praticados em termos
de política e projetos de educação e de
cultura. As bibliotecas ainda são os locais de trabalho
mais visíveis da profissão e não se podem
desconsiderar que as bibliotecas públicas e escolares,
quando existem, são precárias de estruturas e
serviços. Não é sensato, pois, esperar
que as pessoas possam ter uma visão correta da profissão
com um quadro pintado com essas cores. Isso é realmente
impossível. Portanto, não acho que grande parte
da população tenha uma idéia errada da
profissão. As pessoas simplesmente não fazem
idéia do que seja essa carreira”, opina Raimundo
Martins de Lima, presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia
(CFB).
Na prática, o bibliotecário trabalha como um
administrador de dados, que também processa e dissemina
a informação. Além de catalogar e guardar
os dados, ele orienta sua busca e seleção e controla
as operações de empréstimo (no caso das
bibliotecas). É de sua responsabilidade planejar, implementar
e gerenciar sistemas de informação, além
de preservar os suportes (mídias) para que resistam
ao tempo e ao uso. Em alguns casos, atende o público
e costuma conviver com profissionais das áreas de Educação
e Administração.
O mercado de trabalho é especialmente aquecido em cidades
com grande concentração de empresas – mas,
nesse caso, a quantidade de escolas e universidades também
soma pontos. No setor de educação, as vagas aparecem
tanto em instituição da rede pública quanto
da particular.
No momento, as áreas de gestão de serviços
de informação e do conhecimento são as
que apresentam melhores perspectivas de crescimento. No entanto,
exigem boa qualificação, domínio de ferramentas
de informática e de, no mínimo, a fluência
em um idioma estrangeiro. “A característica multidisciplinar
da profissão garante ao bibliotecário amplo campo
de trabalho em relação às áreas
do conhecimento”, assegura Elayne Schlogel, presidente
do Sindicato dos Bibliotecários do Paraná. Ou
seja, existem oportunidades em museus, editoras, empresas de
comunicação, provedores de internet, ONGs, clubes
e associações. Sua atuação se volta
cada vez mais para a criação e a manutenção
de arquivos digitais e para a montagem de banco de dados em
computadores, empregando sistemas de informática e a
internet.
Nichos de atuação
É
possível trabalhar com análise da informação,
por exemplo, e avaliar, selecionar, classificar e indexar livros,
documentos, fotos, partituras musicais, fitas de vídeo
e de áudio e arquivos digitais. Outro ramo de atividade é a
gestão de serviços de informação,
que consiste em planejar, organizar e administrar bibliotecas
e centros de documentação, além de coordenar
a formação do acervo, o arquivamento dos documentos
e sua conservação.
Já a gestão do conhecimento significa desenvolver
e gerenciar mecanismos para sistematizar o conhecimento acumulado
dentro de uma organização, seja ela uma empresa,
uma ONG, uma escola ou uma associação, estimulando
sua divulgação. E também se pode trabalhar
com normatização, montando e mantendo bases de
dados, com o emprego de normas internacionais de padronização.
De acordo com Mariza Russo, do Conselho Regional de Biblioteconomia
do Rio de Janeiro, um iniciante ganha, em média, R$
1.500 mensais. “Mas o mercado apresenta dados de remunerações
de cerca de R$ 5 mil para profissionais mais experientes”,
destaca. Um concurso público para a Câmara Legislativa
do Distrito Federal, em novembro último, garantia a
remuneração de R$ 8.086,54 por 40 horas semanais
para quem conquistasse uma das duas vagas existentes.
Formação e outros requisitos
No Brasil, a profissão de bibliotecário requer,
por lei e decreto federais, formação superior
em Biblioteconomia – curso com duração
de quatro anos. Em alguns países pode-se ter formação
em outra área e depois concluir um mestrado em Biblioteconomia
para trabalhar no setor. “Temos o Conselho Federal de
Biblioteconomia e os Conselhos Regionais que fiscalizam tudo,
para evitar a interferência de pessoas de outros segmentos”,
sentencia Carmelia Regina de Mattos, vice-coordenadora do Colegiado
do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal da Bahia
(UFBA).
A grade curricular tem como disciplinas básicas língua
portuguesa, inglês e literatura. As específicas
incluem aulas sobre planejamento e automação
de bibliotecas, conservação, controle bibliográfico
dos registros do conhecimento e métodos de pesquisa
e tecnologia da informação. O estágio é obrigatório
e exige-se também uma monografia de conclusão
de curso.
Para quem deseja se especializar, há cursos de pós-graduação
(lato e stricto sensu) na área de Ciência da Informação.
O programa, bastante procurado por executivos, foca os processos
de comunicação e estudos de planejamento e gestão
da informação. Existem, ainda, especializações
em administração de banco de dados, voltados
para profissionais que necessitam incrementar os conhecimentos
em informática.
Algumas instituições oferecem chances de especialização
fora do Brasil, um verdadeiro sonho de consumo para, principalmente,
os apaixonados por livros. É o caso da bibliotecária
Ursula Blattman, de Florianópolis (SC), que participou
recentemente de um intercâmbio na Alemanha com o apoio
da federação dos bibliotecários alemães
e do Instituto Goethe, de São Paulo (SP), que todo ano
indica um profissional da América Latina para visitar
bibliotecas mundo afora. “Pude fazer meu roteiro”,
conta. “Escolhi bibliotecas na cidade de Stuttgart, como
a Biblioteca do Estado de Baden Wurttenber, que conta com uma
coleção de mais de três milhões
de livros. E tive a chance de falar sobre minha experiência
no Brasil durante uma palestra sobre bibliotecas digitais no
país.” Em tempo: Estados Unidos, Inglaterra, França
e Espanha são os países mais procurados para
doutorado e mestrado.
Além da boa formação e bagagem cultural,
um bom bibliotecário precisa saber interagir com as
pessoas, buscar o conhecimento não só nos livros,
revistas e jornais, mas também em músicas, comerciais,
filmes etc., desenvolver práticas criativas e inovadoras
para trabalhar com as informações e se interessar
por novas tecnologias.
Na era da internet, esse último pré-requisito é mais
do que essencial: é obrigatório. Na rede há um
crescente e incontável número de informações
disponíveis que necessitam ser organizadas, ordenadas,
filtradas e recuperadas. Ninguém mais preparado que
um profissional de Biblioteconomia para lidar com tudo isso. “Certamente
aumentaram em 50% as oportunidades de emprego para o bibliotecário
por causa da internet. O bibliotecário pode não
só atuar em empresas provedoras, como dentro da própria
rede, com serviços personalizados de indexação
e organização do conhecimento disponível
na rede, facilitando a busca e a escolha da informação
de seus clientes”, afirma o professor João Bosco
Rodrigues de Oliveira, coordenador do curso de Biblioteconomia
das Faculdades Integradas Coração de Jesus (FAINC),
de Santo André (SP).
Já Raimundo Martins de Lima, do CFB, sustenta que a
internet é instrumento e meio, não um fim, pois
as realidades sociais presentes no Brasil não são
lineares nem em natureza nem em nível técnico.
Em outras palavras, não se disseminou completamente
pelo país. Mas, mesmo assim, favoreceu a abertura de
novas vagas e modernizou uma área tão importante,
que vem conquistando pouco a pouco a devida importância.
Profissionais em destaque
Graduado em 1998 em Biblioteconomia e Documentação
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Michelângelo
Mazzardo Marques Viana exerce há seis anos a função
de bibliotecário de suporte na Biblioteca Central Irmão
José Otão da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul (PUC-RS), gerenciando o sistema de automação
e prestando apoio técnico às atividades dos demais
bibliotecários. Internauta convicto, no início
de 1999 ele foi convidado para ser o editor do Guia de Biblioteconomia
do Projeto SobreSites (www.sobresites.combr/biblioteconomia),
uma espécie de bíblia da área, referência
para os profissionais do setor.
“
Foi uma excelente oportunidade para aplicar tudo o que aprendi
na faculdade. Trabalhei durante cinco meses para produzir o
conteúdo do site, que foi ao ar pela primeira vez em
outubro de 2001, e desde então está sendo atualizado
periodicamente e acessado por centenas de pessoas todos os
meses. Estou contente”, conta Michelângelo. “Nosso
objetivo maior é aproximar os indivíduos que
produzem conhecimento de quem precisa desse conhecimento. E,
ainda, precisamos ser capazes de promover a leitura, facilitar
a pesquisa e o aprendizado, disseminar a cultura e contribuir
para a formação de melhores cidadãos”,
acredita.
Já a bibliotecária Claudia Teresinha Stocker,
de Aracaju (SE), transformou a paixão pela leitura e
o senso de organização em carreira. Hoje é presidente
da Associação dos Bibliotecários de Sergipe
e batalha para mostrar à sociedade quem é, de
fato, o bibliotecário e como é seu trabalho. “Falta
marketing em nosso meio”, diz. “Temos que acabar
com essa visão errada de que o campo de atuação
profissional é somente a biblioteca. Lidamos com a informação,
indispensável no mundo moderno, e, portanto, temos um
vasto campo de atuação, inclusive em bancos,
hospitais e na área jurídica.”
Claudia aponta, ainda, a internet como o nicho de mercado mais
promissor e ressalta que o aprimoramento é essencial. “Vale
a pena se manter em constante atualização, participando
de cursos, encontros e congressos, e ficar por dentro do que
está acontecendo na Biblioteconomia em outros lugares,
dentro e fora do Brasil.”
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