"Biblioteca Nacional [de Brasília] terá acervo digital"

Li hoje (28/2/2007) na página 38 do Correio Braziliense a matéria em epígrafe. Em outra matéria, publicada no CorreioWeb (Complexo Cultural terá biblioteca digital em abril, Eduardo Militão, Do CorreioWeb) li que "O ministro [da Ciência e Tecnologia] lembrou que os usuários da Biblioteca terão acesso às dezenas de publicações adquiridas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). "Nossos estudantes terão acesso a todas as bibliotecas do mundo", comemorou Arruda."
 
Cabe alguns esclarecimentos, que, me parece, não foram dados nem ao ministro nem ao governador. A Capes não adquire "dezenas de publicações". A Capes, em seu Portal de Periódicos, adquire a licença de acesso ao conteúdo de milhares de periódicos CIENTÍFICOS, majoritariamente estrangeiros, onde são divulgados os resultados de pesquisas científicas e tecnológicas. A cada ano a Capes renova essa licença de uso, que deve estar por volta de 20 milhões de dólares anuais. Não existe a compra definitiva dos periódicos em papel, que ficariam à disposição do público, a qualquer momento. Trata-se de material utilizado quase que exclusivamente por professores e alunos do ensino superior. E as duas principais universidades de Brasília já têm acesso a esse portal.
 
Os estudantes não terão acesso "a todas as bibliotecas do mundo". Há um erro nisso. O acesso que terão será aos catálogos das bibliotecas. Como qualquer usuário da internet sabe muito bem. Os textos completos disponíveis em forma digital na internet são ainda uma parcela ínfima do que foi publicado nos últimos dois séculos. E a digitalização de obras recentes esbarra na questão dos direitos autorais, como o demonstram as tentativas feitas fora do Brasil e também no Brasil. Portanto, é um erro, e erro grave, dizer e repetir que o brasiliense terá "acesso a todas as bibliotecas do mundo".
 
Havia uma esperança de que a biblioteca do Conjunto Cultural viesse a ser a principal biblioteca pública de Brasília. Uma biblioteca moderna, que, sem abrir mão dos recursos da tecnologia da informação, propiciasse à população, com o apoio de uma rede de bibliotecas públicas espalhadas no Distrito Federal, o melhor dos serviços que uma verdadeira biblioteca pode e deve proporcionar.
 
O envolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia no financiamento da compra de computadores para essa "biblioteca digital" é discutível. Será essa a função dele? O que terá a dizer sobre isso o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia do MCT? Ou o Conselho Técnico-Científico do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) do MCT? Fará isso parte de sua missão?
 
Será que as autoridades envolvidas nisso sabem o que é uma biblioteca digital? Será que tiveram o assessoramento adequado? Será que sabem quais são as necessidades de leitura e informação da população de Brasília? Será que sabem que não se encontram digitalizadas as grandes obras da literatura brasileira contemporânea? Será que não sabem que será impossível ter acesso à literatura infantil contemporânea brasileira? Será que ignoram o papel das bibliotecas com livros na formação de leitores?

Onde se terá visto antes tanta desinformação sobre o que é e o que deve ser uma biblioteca pública? Será que ninguém envolvido nesse projeto tem noção da realidade bibliotecária nacional?

Só clamando aos céus para que seja dado um pouco de juízo e responsabilidade social a quem responde pelo uso do dinheiro público!

Com toda a indignação a que tenho direito.

Briquet de Lemos
 
Professor aposentado de biblioteconomia da Universidade de Brasília. Ex-diretor do IBICT.
Editor e livreiro.
(61) 3322 9806

 




 

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