UTILIDADE E PRAZER

Afirmar que o Brasil vive múltiplos tempos históricos não chega a ser uma
afirmativa polêmica ou de impacto. Há muito aqueles que se debruçam sobre o
país e suas contradições repetem isso. Um exemplo claro disso pode ser
encontrado nos limites de São Paulo: a exuberância do século vinte de uma
avenida Paulista encontra o seu oposto em algum vilarejo situado à
distância de poucos quilômetros. Se não fosse pelas antenas de televisão e pela presença
estranha de alguns automóveis, não seria injusto afirmar que a localidade
não saíra do século dezenove. O exemplo é paulista. Se fosse ampliado para todo
o Brasil, os contrastes seriam maiores.

Sobrepondo-se a esse panorama estende-se uma Biblioteconomia multifacetada:
se antes os profissionais eram preparados para exercer atividades em
bibliotecas - e ponto final - hoje é oferecido um leque de opções profissionais. Os
próprios estudantes durante o curso vão dando uma direção de acordo com os seus
interesses. E mais: até os cursos apresentam enfoques variados. É difícil
preparar um bibliotecário polivalente, ou seja, aquele que saiba conduzir
adequadamente uma biblioteca escolar e ao mesmo tempo tenha condições de
gerir um centro de informação com o rigor indispensável. É tarefa complexa formar
um profissional para trabalhar numa empresa multinacional da avenida Paulista
com todas as suas exigências técnicas e, ao mesmo tempo, prepará-lo para atuar
na biblioteca municipal da cidadezinha situada logo adiante.
Pois aí está: o bibliotecário e o país apresentam-se em fragmentos. A
multiplicação das partes resultará no número de faces do bibliotecário
necessário para o Brasil hoje.

Traçar o perfil do usuário é uma saudável e crescente preocupação dos
bibliotecários. Agora é preciso parar um pouco e descobrir o nosso perfil,
descobrir a nossa cara e ver qual é a nossa função e o que representamos
nessa tessitura social complexa. Talvez já tenham traçado o perfil do
bibliotecário brasileiro, mas falta ainda um espelho permanente para podermos conferir. A
causa desse perfil difuso e até mesmo distorcido talvez seja motivada pelo
desconhecimento que existe do meio social: o público e as suas condições. O
bibliotecário só irá se entender como profissional quando tiver um
conhecimento amplo do meio onde atua. Aí está: o público é o seu espelho. Um perfil
técnico e frio do usuário tem a sua utilidade, mas aí não se esgota o conhecimento
necessário do público. É preciso ir além, identificando o usuário e as suas
circunstâncias. A História é uma fonte para a compreensão de nossas
atividades.

Vez ou outra é necessário ficarmos atentos à História dos usuários, saber
compreender as suas grandezas e misérias. Bibliotecário que não tem uma
compreensão profunda de seu público, formação e características, por mais
hábil classificador e catalogador que seja, está destinado a ficar aquém de suas
possibilidades.
Hoje quando se pede um retrato do bibliotecário, aparece como o traço mais
saliente a eficiência. Para a desordem da informação só mesmo um
profissional assim: organizado e capaz de criar sistemas que possam facilitar a vida
daqueles que se alimentam de informações. Afinal, o desenvolvimento
tecnológico só existe em função da eficiência, da rapidez, da precisão. Time is money
foi a frase que o Macunaíma não fez. O bibliotecário dos trópicos que se adapte
às novas exigências sociais, pedem. O ensino da Biblioteconomia está aí e dá a
sua resposta: é preciso formar jovens que, na prática, sejam precisos, rápidos,
eficientes. Talvez daí derive a acusação freqüente que fazem ao
profissional: é um técnico. Ele é treinado para servir eficientemente a uma causa que ele
quase sempre desconhece.

Afinal, bibliotecários para quê?

Mário de Andrade em Os filhos da Candinha, falando sobre a Biblioteconomia
combate essa eficiência que ele via progressiva na vida moderna. Diz ele
que é preciso "tornar os jovens mais lentos e iniciar no Brasil o combate às
velocidades de espírito". E conclui: "E pelo próprio hábito de fichar, de
examinar o livro em todos os seus aspectos, a biblioteconomia rallenta os
seres e acode aos perigos do tempo, tornando para nós completo o livro..." Essas
afirmações não são, de forma alguma, uma contribuição à ineficiência, mas o
esforço para contrabalançar o tecnicismo seco, sem beleza que o humano
confere e que pode estar ligado a interesses que nem sempre interessa a nós
defender.
 O bibliotecário não é um ser adestrado ou a extensão de um computador. Ela
vai além. Ele não deve ser o engenheiro que apenas constrói uma ponte que não
caia, mas sabe porque está construindo a ponte e dando um sentido a ela. O
bibliotecário é um ser político que atua numa das áreas mais importantes da
vida contemporânea: a informação. Se o sentido da eficiência é importante,
não podem ser esquecidas as dimensões da utilidade, da beleza e do prazer que a
profissão confere.

Luís Augusto Milanesi

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MILANESI, Luís Augusto. Utilidade e prazer. ExtraLibris, 2005. Disponível
em:
http://academica.extralibris.info/bibliotecas/utilidade_e_prazer_luis_august.html>.
Acesso em: 24 nov. 2005.
Original: MILANESI, Luís Augusto. Utilidade e prazer. Palavra-chave, São
Paulo,
n.1, p.2, 1982.

E-mail do autor autorizando a publicação:

Não imaginava que um texto de 1982 (vinte e quatro anos depois!!!) pudesse ter alguma utilidade. O mais constrangedor é que as preocupações expostas, com alguns ajustes, ainda encontraram respostas. Aliás, os problemas agravaram-se. Pode, sim, ser publicado. Talvez fosse importante ressaltar a data da publicação.




 
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