A hora e a vez das mediatecas

Postado em 22/01/2008.

O Globo – RJ, Elis Monteiro, 14/01/2008

Bibliotecas nos EUA atraem mais pelos PCs do que pelos livros. E no Brasil, como está o cenário?

Salas enormes, estantes repletas de livros, leitores vorazes em busca de cultura sob a forma de obras de papel. O cenário romântico não é mais realidade para a maioria dos americanos, é o que provou uma pesquisa publicada recentemente pela Pew Internet & American Life Project. Segundo dados levantados pela consultoria, mais da metade dos americanos visitaram uma biblioteca em 2007. A grande questão é que, ainda de acordo com o estudo, todo esse pessoal foi atraído pelos computadores disponíveis nas bibliotecas, e não apenas pelos livros.

O fenômeno se dá pelo surgimento, diz ainda a Pew, de uma nova geração, a “Y”, formada por jovens de 18 a 30 anos aficionados por tecnologia. É que, na terra do Tio Sam, as bibliotecas há tempos deixaram de ser o que o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, batizou de “estoque de livros”. Lá, as bibliotecas já são “mediatecas”, ou seja, lugares públicos onde são oferecidas várias formas de acesso à cultura, não apenas os livros em papel. Segundo Muniz, o Brasil deveria adotar esse mesmo modelo.

No Brasil, relação livraria/habitante é baixa. Os EUA ainda estão anosluz à frente do Brasil no que diz respeito ao tamanho do mercado editorial. O Brasil tem, hoje, 2.767 livrarias, numa proporção de 70 mil leitores para cada livraria; nos EUA, esta relação é de 15 mil habitantes por livraria. O índice americano é o melhor do mundo.

– Segundo a Unesco, o ideal é uma relação de dez mil habitantes por livraria – diz Muniz Sodré.Há números ainda piores: em 2006, o Brasil editou 22 mil livros; os EUA, nada menos que 500 mil títulos.

– Temos um problema de livrarias e de escoamento de livros. Em 2007, foram comercializados no Brasil 310 milhões de livros; destes, 185 milhões foram comprados pelo governo. Ou seja, aqui não basta informatizar as bibliotecas, você tem que criar uma cultura livresca. E esta expansão é dificultada pelos meios audiovisuais, como a TV, o computador e a internet – diz Muniz. – O livro perdeu a centralização simbólica, não é mais o único veículo transmissor de cultura.

Biblioteca Nacional já faz parte de projeto mundial.

Mas engana-se quem acha que o presidente da Fundação Biblioteca Nacional é um defensor da leitura tradicional. Para Muniz, todas as novas formas de leitura são “plurais e válidas”. O entusiasmo com a exploração de novas tecnologias como a internet e com a criação de “mediatecas” é tanto que a Fundação foi uma das primeiras a aderir ao projeto Biblioteca Digital Mundial, capitaneado pela Biblioteca do Congresso Americano e pela Unesco, e já enviou, para o banco de dados mundial, milhares de mapas e documentos raros da coleção da Biblioteca, dona de um acervo de 9,5 milhões de itens, dentre os quais dois milhões de livros.

A digitalização do acervo, principalmente de mapas raros, é a “menina dos olhos”. Ela é feita por técnicos da própria Fundação – que chegou a “dispensar” uma oferta feita pelo Google para realizar o trabalho.

– Não queria aquele monte de gente trabalhando aqui; podemos fazer por conta própria – diz o presidente da Fundação.

A intenção agora, diz Muniz, é “nacionalizar” uma biblioteca que não é apenas da cidade do Rio de Janeiro – como o próprio nome diz, ela é nacional. Ou seja, a idéia é usar a digitalização do acervo para levar as obras da Biblioteca a todos os cantões do país.

– Queremos incrementar ainda mais a digitalização porque uma biblioteca parada não passa de um estoque de livros. Dedicar-se só ao livro é ser reacionário – diz Muniz Sodré.

A nacionalização da Biblioteca, que é a oitava maior do mundo e primeira da América Latina, passa não só pela digitalização do acervo como também pela criação de novas bibliotecas Brasil afora e a oferta, nestes espaços, de computadores e, claro, de livros. A Fundação inaugurou, em 2007, 404 bibliotecas públicas/ municipais. Agora, estão a caminho outras 300, cada uma recebendo um “kit” com dois mil livros, estantes, computadores, CD players e softwares para catalogação das obras.

Outro projeto já em andamento é a Rede Memória Virtual, que reúne, na internet, no site da Biblioteca http://www.cbn.br, material digital de instituições públicas e privadas brasileiras. Atualmente, o projeto já reúne dez instituições. A intenção, diz Muniz Sodré, é aumentar a rede ainda mais.

A propósito: na edição da semana que vem, falaremos mais sobre o projeto de biblioteca virtual da Fundação e sobre outros projetos que já fazem o maior sucesso internet afora.

Fonte: http://www.cultura.gov.br/site/?p=9715