A menina que guardava livros

Postado em 14/01/2011.

O prédio amarelo já foi uma capela. Depois, virou rodoviária. A informação foi passada oralmente, mas pode estar dentro de algum livro da história de Uberlândia guardado nas prateleiras do local de trabalho de Denise de Carvalho, diretora há 24 anos da Biblioteca Municipal Juscelino Kubitschek de Oliveira, no bairro Fundinho, zona central.

Todas as manhãs, ela sobe os 23 degraus da escada que leva à sala de trabalho em que administra o lugar onde passou metade de seus 48 anos, vividos com muita paixão. A satisfação se percebe pelo sorriso. “Você mexe com a comunidade e ela é bem agitada. Aqui, toda hora é uma novidade, uma procura diferente, uma demanda nova. Eu gosto”, disse Denise, que desde jovem trabalha cuidando de livros.

Uberlandense, conquistou o primeiro emprego em Belo Horizonte, quando cursava Biblioteconomia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ficou encarregada de administrar o acervo da faculdade de Direito. Foi assim que pegou gosto e percebeu que estava certa quanto àquelas impressões que teve ainda na escola, quando em uma feira de profissões tomou conhecimento da labuta.

Segundo ela, a profissão tem um bichinho que, quando pega, faz pensar em nunca mais mexer com outra coisa. “É instigante esse universo, porque você trabalha muito com criança. Se você não conquistá-la, não consegue fazer dela um futuro leitor. Isso que instiga”, afirmou. De acordo com ela, o país tem poucos leitores devido a uma dificuldade no acesso ao livro, que é caro e encontra-se em bibliotecas distantes. Mas, humildemente, tenta dar um jeito nisso. É pela acessibilidade, conquista e formação de futuros leitores que Denise e a equipe da Juscelino Kubitschek desenvolvem atividades de incentivo à leitura.

No começo de 1986, por exemplo, recém-contratada, ela começou a trabalhar com o projeto que lhe tira os maiores sorrisos dos lábios e deixa a voz mais doce ao falar: o carro-biblioteca. Após a aquisição de verba com o governo federal, uma Kombi foi comprada e adaptada para levar estantes repletas de livros aos bairros mais afastados do Centro, como Tocantins, Maravilha, Aclimação e outros lugares que, muitas vezes, ainda nem possuíam asfalto. Tudo para plantar sementes, como ela mesma afirmou. “Tinha uma mãe que levava suas filhas sempre que o carro ia ao bairro Tancredo Neves. Toda vez, ela estava lá. Há pouco tempo, voltei ao local e qual foi minha surpresa? As meninas já eram mulheres e levaram seus filhos”, disse. São os frutos colhidos.

Com o tempo, a Kombi foi substituída por um ônibus doado, com capacidade para transportar 5 mil livros, mas que se encontra atualmente em manutenção. Para este anos, Denise pretende fazê-lo voltar a circular pelas ruas da cidade juntamente com o veículo mais novo, que leva diariamente um acervo de 1,8 mil volumes pelos bairros da cidade.

Dessas idas e vindas motorizadas, algumas histórias marcaram a memória da bibliotecária, como a vez em que encarou sozinha um bêbado que, invocado com a gestão de um antigo prefeito, começou a fazer uma dança da chuva portando uma machadinha. “O pessoal que trabalhava comigo desapareceu e fiquei sozinha com aquele homem. Ele fazia círculos ao meu redor, batendo o machado de um canto ao outro”, disse. Ossos do ofício. Ela afirmou que o importante é ver o retorno a longo prazo, quando as crianças crescem e se tornam assíduas leitoras, realizando conquistas e, em alguns casos, procurando os funcionários da biblioteca para agradecer o incentivo.

Incentivo este que Denise teve quando criança de sua tia, que lhe presenteou com um livro ilustrado da Walt Disney chamado “Anita”. Para ela, é muito importante que os pais e responsáveis mostrem-se leitores aos pequenos, pois a criança aprende muito vendo tais hábitos. Em casa da ferreira Denise, inclusive, o espeto não é de pau: a filha Ana Luiza, de 10 anos, adora ler e, algumas vezes, manifestou o interesse de substituir sua mãe quando ela se aposentar. “Toda vez que vou com ela ao shopping, tenho de comprar algum livro. Ela mesma já vai direto à livraria”, disse a mãe.

A bibliotecária, no entanto, não é de emprestar muito os livros de sua biblioteca particular. É ciumenta assumida com seus volumes. Gosta de deixá-los bem-cuidados e preservados, pois tem um carinho muito grande por aquelas histórias. Há livros que, apesar de mais novos, têm personagens e enredos que lhe fizeram companhia durante a infância.

Prevendo trabalhar por mais seis anos, Denise ainda não decidiu o que fará quando se aposentar. Às vezes, pensa em mudar os rumos, “mas o tal bichinho não deixa”. Uma coisa certa é que aproveitará mais tempo com a família que, para ela, é tudo.

FONTE:Gustavo Stivali – Correio de Uberlândia – 25/12/2010